Não esqueço que esqueci
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Cristina Elias

vídeo, 16 min, HD, 2020

inspirado no texto de Clarice Lispector "A mulher que matou os peixes"

câmera: César Meneghetti  montagem: Cristina Elias música: Leigh Thomas

Realizado com apoio do prêmio FUNARTE Respirarte Artes Visuais 2020

Nesse vídeo, procuro dar voz em linguagens diversas - performance, dança, imagem, texto falado e escrito - ao conto "A mulher que matou os peixes" de Clarice Lispector. O texto de Clarice funciona como gatilho para a composição do movimento o qual, ao mesmo tempo, inspira a reescritura desse mesmo texto. A paisagem sonora do vídeo é composta pela música (Leigh Thomas) e fala (minha voz). Essa fala em fluxo mistura trechos recitados do conto de Clarice e trechos de texto que emergiram no processo de improvisação do movimento. Portanto, reescrevo o texto, não apenas em outras linguagens como dança e performance, mas no seu próprio código original (o texto em si) que, no encontro com outra realidade individual e espaço temporal, se descompassa de seu centro e se transforma em algo outro.

 

Em A mulher que matou os peixes, conto (supostamente) infantil de1968, Clarice traz a público o mundo interno de uma mulher que, esquecendo de alimentar os peixes que lhe foram confiados, acaba por matá-los “sem querer”. Um mundo complexo se apresenta aos leitores, que são ativamente intimadas a julgar o “crime” então cometido por essa mulher. “Vocês me perdoam?”. Com essa pergunta Clarice finaliza o livro, deixando muitas questões em aberto: a "mulher" que "esqueceu" e que, sem querer, "matou"; o julgamento e a sentença pelo olhar do "outro"; a culpa, a auto-punição e a auto-condenação; por outro lado, uma busca de aceitação e perdão de si mesma no erro, na imperfeição, na falha humana. Numa visão mais ampla, para além do individual e do psicológico, está em jogo o esquecimento do outro, do coletivo; a falta de cuidado (mesmo involuntária) que causa o sofrimento de pessoas fragilizadas que, nas palavras de Clarice, "querem só viver". Sofrimento esse que decorre da indiferença, da invisibilidade social, do fato de “não terem voz para reclamar”, assim como os peixes. A “mulher” tinha o alimento mas “esqueceu” de fornecê-lo. A falta de intenção de matar não apaga a morte dos peixes.