Descobrindo a cultura brasileira pelo Japão

Atualizado: 13 de mar.

Neste mês tive a honra de ser convidada por Christine Greiner (Artes do Corpo / Comunicação e Semiótica PUC-SP) para oferecer duas aulas dentro de um curso sobre cultura brasileira que ela organizou na Universidade de Tsukuda (Tóquio), do qual participaram também pesquisadores e artistas como Beatriz Aoki, Marcus Bastos, Marco Souza, Michiko Okano, Miisake Tanaka entre outros. A primeira aula foi sobre performance art no Brasil. Além de Flavio de Carvalho, Paulo Bruscky, Wesley Duke Lee e o coletivo Rex & Sons, Márcia X... redescobri e reexperimentei o corpo coletivo proposto pelos artistas neo-concretos como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape, a meu ver, responsável pelo nascimento de uma performance autenticamente brasileira e ao mesmo tempo global.


Aproximando-se do movimento da performance art na Europa e nos EUA, os neo-concretistas propunham uma arte baseada na percepção e na experiência não apenas do corpo, mas também do tempo e do espaço. Por outro lado, afastando-se da performance art, não faziam um culto da figura individual do artista. Pelo contrário, essas obras se desprendiam da figura de quem as criou para se pulverizar no corpo do outro ou dos outros. Os objetos relacionais de Lygia Clark são um exemplo dessa forma de performance que se desprende da persona do artista (lembrando que Lygia sempre evitou a palavra performance para seus trabalhos): obras que só se realizam com o envolvimento ativo do observador ou do “facilitador”.

Aqui não posso evitar falar da teoria corpo-mídia de Christine Greiner e Helena Katz que apresenta um corpo sempre em metamorfose a partir de relações que estabelece com o meio e os outros: um corpo em processo, aberto a interferências do fora. O dentro e o fora do corpo, o individual e o coletivo, o self e o outro se fundem numa teia de relações.

Como vivi e estudei muitos anos na Europa e me aproximei da performance através dessa lente, sempre achei que a minha referência nas artes do corpo era exclusivamente europeia. Engano. Preparando essa aula me redescobri bem brasileira nos métodos e princípios de criação. Agradeço Christine Greiner pela inciativa e generosidade na concepção e realização deste curso, que já foi agendado de novo para o próximo ano em Tsukuba. Não surpreendentemente, este corpo coletivo de que falei se casa com princípios filosóficos e estéticos que embasam a cultura japonesa. Uma sociedade em que o indivíduo é o resultado de relações que se desenvolvem num “espaço-entre”. Mas este já é um tema para outra pesquisa.

Sobre a segunda aula, “artes do corpo e o feminino: uma breve comparação entre Brasil e Japão”, falarei na minha próxima postagem.




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