Desenhos invisíveis: quando o produto perde sua função

Atualizado: 13 de mar.

por Christina Elias

Na quinta-feira passada, 17 de Novembro de 2021, realizei uma oficina de corpo e desenho, com base em algumas técnicas de movimento inspiradas no Butô e no Aikido entre outras práticas que envolvem o corpo-mente, para integrantes do Grupo Butantã de Maior Idade. O que mais me marcou nessa experiência, foi como o desenho final, o resultado que se mostra para os outros verem, perde completamente a sua importância quando o caminho que se faz para chegar nele é traçado com consciência e presença.

Eu fiz um erro nessa sétima oficina online do projeto Mulheres e Metamorfoses, aliás em todas as outras anteriores também. Eu pedi para as participantes desenharem a lápis. O traçado, na maior parte dos casos, ficou invisível na tela do computador. Tivemos de trabalhar a partir de narrativas das participantes sobre os seus próprios desenhos. Fabulações das suas próprias criações. Ou seja, fabulações de fabulações. Foi maravilhoso!

Ouvi histórias de baleias que se libertam do aquário, viagens pelo espaço sideral, mergulhos na solidão da vida, superfícies vermelhas que se transformam em azuis (isso quando estamos trabalhando com tudo cinza), a dança das ondas do mar, garrafas cheias de água com a tampa aberta, teclas volantes de computador...

Nas oficinas de corpo e desenho, passamos por três etapas: a primeira é o desenho cego, ou seja, desenhar uma paisagem sem olhar para o papel em que se desenha; a segunda, é a transformação do traçado a lápis em movimento no espaço; e a tarceira, a associação deste movimento ou gesto a uma palavra, num retorno para o papel. A passagem pelo movimento no espaço, em todas as oficinas realizadas até hoje, segundo relatos dos participantes, foi um elemento de liberdade criativa para se retornar à técnica do desenho. Desenhar no ar, imaginando uma plataforma multidimensional, ou melhor, vivenciando essa plataforma, trouxe para o desenho inicial elementos surpreendentes.

Em geral, eu peço para as particpantes me enviarem uma foto dos desenhos que fizeram na oficina para eu poder interpretar. Nessa passada quinta-feira, não pedi. Os desenhos no papel perderam completamente a sua função perante a riqueza das vivências que me foram contadas. Guardei os desenhos invisíveis que me foram presenteados.


196 visualizações0 comentário