Não esqueço que esqueci

Atualizado: 13 de mar.

Cristina Elias, 16 min, HD, 2020

Vídeo (artes visuais, performance, dança e literatura)

inspirado no texto de Clarice Lispector A mulher que matou os peixes

câmera: César Meneghetti montagem: Cristina Elias música: Leigh Thomas

Realizado com apoio do Prêmio FUNARTE Respirarte Artes Visuais 2020


clique na imagem para ver a performance


Nesse vídeo, procuro dar voz em linguagens diversas - performance, dança, imagem, texto falado e escrito - ao conto "A mulher que matou os peixes" de Clarice Lispector. O texto de Clarice funciona como gatilho para a composição do movimento o qual, ao mesmo tempo, inspira a reescritura desse mesmo texto. A paisagem sonora do vídeo é composta pela música (Leigh Thomas) e fala (minha voz). Essa fala em fluxo mistura trechos recitados do conto de Clarice e trechos de texto que emergiram no processo de improvisação do movimento. Portanto, reescrevo o texto, não apenas em outras linguagens como dança e performance, mas no seu próprio código original (o texto em si) que, no encontro com outra realidade individual e espaço temporal, se descompassa de seu centro e se transforma em algo outro.


Em A mulher que matou os peixes, conto (supostamente) infantil de1968, Clarice traz a público o mundo interno de uma mulher que, esquecendo de alimentar os peixes que lhe foram confiados, acaba por matá-los “sem querer”. Um mundo complexo se apresenta aos leitores, que são ativamente intimadas a julgar o “crime” então cometido por essa mulher. “Vocês me perdoam?”. Com essa pergunta Clarice finaliza o livro, deixando muitas questões em aberto: a "mulher" que "esqueceu" e que, sem querer, "matou"; o julgamento e a sentença pelo olhar do "outro"; a culpa, a auto-punição e a auto-condenação; por outro lado, uma busca de aceitação e perdão de si mesma no erro, na imperfeição, na falha humana. Numa visão mais ampla, para além do individual e do psicológico, está em jogo o esquecimento do outro, do coletivo; a falta de cuidado (mesmo involuntária) que causa o sofrimento de pessoas fragilizadas que, nas palavras de Clarice, "querem só viver". Sofrimento esse que decorre da indiferença, da invisibilidade social, do fato de “não terem voz para reclamar”, assim como os peixes. A “mulher” tinha o alimento mas “esqueceu” de fornecê-lo. A falta de intenção de matar não apaga a morte dos peixes.


Nesse contexto, o texto de Clarice escrito em 1968 faz-se mais do que atual. Vejo na sociedade em que me reconheço hoje o julgamento e a punição do outro como uma forma de entretenimento, quase um prazer sádico. Vejo seres-humanos que consideram aquilo que é diferente deles mesmos ou daquilo que acreditam ser a “Verdade” como uma ameaça, um crime a ser punido. Uma sociedade em que todos são juízes e carrascos; uma sociedade individualista ao extremo que deslocou o “desprendimento” e o “desapego” propostos por algumas linhas filosóficas orientais para um lugar equivocado, onde a importância do “outro” é aniquilada pelo cuidado unicamente com o próprio eu. Uma sociedade que se apoia sobre uma premissa de esquecimento, de esquecimento da dor do outro.


Em NÃO ESQUEÇO QUE ESQUECI, olho para mim como parte dessa sociedade e, com os recursos artísticos que conheço e domino, me coloco em julgamento perante os olhos do outro e de mim mesma: “Me perdoarão? Me perdoarei?”. A fome, a necessidade, a dor como fatos. A inação, o esquecimento, uma falha humana ou um crime?



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