Realidades de exílio: Uma possível América Latina no centro de São Paulo

Atualizado: 13 de mar.

Passei 2021 ensaiando para fazer a oficina de corpo e desenho com as mulheres do Centro Cultural Ouvidor, um prédio no centro de São Paulo, ocupado por artistas provenientes de países diversos e de áreas variadas das artes. Ainda não tinha chegado lá porque com a pandemia, as oficinas neste ano foram todas online. Nem todas as pessoas, principalmente no Brasil e mais principalmente ainda no centro de São Paulo, têm acesso a smartphones, laptops ou internet, o que as exclui de muitas atividades. Mas não queria terminar o ano com pendências e decidi fazer a última oficina do ano presencial. Para a minha surpresa, conheci um mundo novo dentro da cidade em que nasci e cresci: uma possível América Latina, o que eu sempre pensei que fosse um sonho fantástico.


Nunca me senti latino-americana, talvez pelo fato de a língua ser outra e de o Brasil ser do tamanho de um continente o que nos afasta geograficamente de outros países e culturas. Minha primeira experiência de latinidade foi em Berlim, em 2002, quando estudei no LAI –Instituto da América Latina (Latein Amerika Institut) da Universidade Livre de Berlim. Ali, tive a sensação de que vinha de um país pertencente a uma história de colonização, que embora com suas especificidades, era codividida com outros. Ainda em Berlim, tive outras vivências de uma solidariedade latino-americana. Em 2011, participei do festival Plataforma Berlin (http://www.plataformaberlin.de/plataforma.html ), que traz artistas da performance e da dança de diversos países da América Latina. Entretanto, essa identidade latina foi sempre algo que se construiu num exílio dessa própria realidade.


Mas essa última oficina no Centro Cultural Ouvidor me mostrou que realidades de exílio podem ser fortes armas para o desenho de formas alternativas de existir. Mulheres e meninas da Colômbia, Peru, Venezuela, partes diversas do Brasil...; uma língua que transita entre o espanhol e o português; pessoas que não têm endereço fixo, às vezes nem documentos de identidade, mas que são fortes, estáveis dentro de seus próprios corpos, seus casulos, e que vivem essa passagem que chamamos de vida de uma forma intensa e sincera; mas o mais valioso, vi ali uma forma de apoio, cuidado e solidariedade entre as participantes que no final da oficina foi definida por elas mesmas como uma “experiência de amor”. Ainda uma realidade de exílio, mas uma possibilidade de existência que ativamente se coloca fora de um sistema econômico-social que escolhe as pessoas que irá incluir, gerando hordas de pessoas à margem, de vidas que não vale a pena ou que não é possível proteger.


O Ouvidor é um prédio com 13 andares e diversas pessoas e famílias vivendo e trabalhando em cada um deles. As condições da construção são precárias devido à falta de recursos, mas graças aos esforços comuns dos moradores, a vida ali se organiza e flui. PLANTAS. Durante a oficina, várias das mulheres disseram que para elas, “as plantas” são muito importantes. Os desenhos que apareceram mostraram essa preocupação. Em cada andar do prédio, um foco verde, uma horta, plantas medicinais, um vaso de flores. Numa situação em que nem a subsistência individual é garantida, o meio-ambiente, outras formas de vida para além da humana são protegidas.

No ensaio “Violence, mourning and politics” (do livro Precarious life, 2004), Judith Butler fala de uma “vulnerabilidade comum ao humano” que decorre da “vida” em si; uma “vulnerabilidade primária” que “precede a própria formação do eu” e que deriva da “condição de ter sido parido nu desde o começo e contra a qual não se pode argumentar”. O corpo é um lugar exposto a uma potencial violência, que senão consumada assombra como “possibilidade”. Da “cumplicidade” nessa potencial agressão resulta uma esfera partilhada de vulnerabilidade, apesar de diferenças históricas e geográficas. Para Butler, é nessa “vulnerabilidade” que o “humano” se forma. É no contexto dessa abertura ao que não se pode prever que Butler coloca a sua questão formulada logo no início do ensaio: “O que conta como humano? Quais vidas contam como vidas?” (BUTLER, 2004, p. 20, tradução nossa). A vulnerabilidade à perda, à violência ou à mera possibilidade dela forma os seres politicamente enquanto coletivo e adquire um viés criativo enquanto gatilho para transformação.



No centro da cidade de São Paulo, a quarta cidade mais rica das Américas, pessoas de diversas outras localidades constroem uma realidade de exílio: fora de seus países e culturas de origem (e algumas vezes mesmo dentro deles ), fora de um sistema capitalista que se encontra em ruínas e que também as provoca. Uma muda de América Latina brota às margens de um sistema global de exploração e domínio, em que países fora do eixo Europa/EUA e, mais recentemente, China, são excluídos do usufruto dos lucros de seu próprio trabalho. Tendo fechado 2021 com a primeira oficina presencial de Mulheres e Metamorfoses, passo para o ano de 2022 repetindo a reflexão de Butler: “O que conta como humano? Quais vidas contam como vidas?”. E espero que este questionamento, considerando ideologias e formas de pensar anti-humanas que têm tomado força ultimamente, se repita como um mantra ao longo deste novo ciclo.


Clique aqui para ver a oficina de corpo e desenho n. 9 no Centro Cultural Ouvidor (São Paulo)


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